setembro 17, 2007

PÓ ( PARTE 2 )

MAIS UM RAPAZ COMUM...

Escuto gritos...

- Corre,corre,corre !!!

Escuto barulhos de fogos que vem no sentido do campo,o futebol não para,é campeonato e em meio de alguns moleques tem um que chama atenção da torcida,logo após de boas jogadas e um bom desempenho em campo,joga com raça,mostra que não tem bola perdida e que no sangue corre o gosto da vitória.

No momento mostra sorriso,esconde no olhar o sofrimento,volta a ser criança talvez comece a lembrar de como era bom esse tempo,apesar de tanta dificuldade que havia passado até hoje.Durante esse vago tempo outros comentam:

- Mano o moleque é bom mesmo !

- Quem sabe vire até jogador profissional !

O jogo estava em alta,assim como o respeito que os outros tinham pelo moleque,que possuía simpatia,carisma,considerado “sangue-bom” em qualquer situação,pois além do ótimo futebol adquirido ele também tinha vários amigos.

Amigos de infância,criado junto desde pequeno que havia estudado até na mesma escola,na mesma sala de aula e tal.Que passava várias horas conversando e comentando sobre seus sonhos,que no momento era ser jogador profissional,ter um carro,ter uma casa e até mesmo uma família,sonhava em ter bastante dinheiro pois ouvia muito de sua mãe,o conselho de estudar pra ser alguém,pra não ter que passar por todo o sofrimento que ela já tinha passado,que como sonho de sua mãe fosse ver seu filho fazendo uma faculdade e que no futuro se tornasse um doutor,ser algo importante.

Mas ele queria mesmo ser jogador,torcia pro Santos e tinha o rei Pelé como ídolo,assim como todos os outros jogadores que passaram pelo clube.O sonho era grande,assim como as suas habilidades,pois ele passava várias horas treinando,fazendo o melhor possível para que esse sonho pudesse ser realizado.

Certo dia,ele resolveu ir treinar bem cedo antes do sol brilhar,o tempo estava abafado e ele estava simplesmente inspirado,pois aguardava ansioso a hora de fazer sua inscrição,para poder ter a oportunidade de fazer um teste em algum clube de futebol,ele comentava com os amigos que iria tentar primeiro no clube da Portuguesa,que até então para alguns era a onde poderia ter a maior chance de passar no teste.E assim é feito,ele consegue passar no teste e comenta com todos os amigos,e falava que agora era questão de tempo pra poder concretizar o seu sonho e também ver a alegria de sua mãe,que quando soube da noticia não hesitou em lhe parabenizar e lhe dar um grande abraço,pois expressa do sua felicidade mesmo não sendo o seu sonho,mas sim de seu querido filho.

É chegado o dia da apresentação no clube,após ter passado um mês após o teste,era segunda-feira fria e o tempo estável,mas isso nada o atrapalha já que à ansiedade volta a sua presença e durante o trajeto até o clube,ele começa a imaginar como iria ser o seu dia e suas jogadas.Enfim tudo ocorrerá bem,assim também no decorrer da semana,como todos os dias treinamento atrás de treinamento.

O final de semana se aproxima e ele tenta aproveitar o máximo mesmo cansado,nisso ele acorda cedo toma café junto a sua mãe e seu outro irmão,seu pai era separado de sua mãe,deste quando ele tinha cinco anos de idade.De certa forma ele não aceitava aquela situação desde seus nove anos pois foi quando começou a entender realmente o que havia acontecido e porque de seu pai ter deixado sua mãe sozinha.Tinha nos olhos revolta e tinha seu pai como inimigo.

Terminado o café,ele vai pra rua ver como anda o movimento,ver as minas e se algum amigo estiver acordado trocar uma idéia em frente de casa,durante um bom tempo ele fica sozinho,pensando na vida e em tudo que planejava fazer durante o seu descanso.De repente ele pensa ir até o campo pra ver se tem algo acontecendo ou até mesmo se tivesse algum jogo acontecendo,mas não tinha nada,tinha simplesmente somente algumas crianças correndo no campo,outras empinando pipa e até outros seis moleques tocando bola na metade do campo.

Ele andando em volta do campo vendo tudo aquilo,resolve somente ficar em paz,de repente uns dois caras se aproxima dele,após reconhecer que ele era aquele moleque do jogo,e pergunta se ele queria ir pra uma festa,se ele usava algum barato.Ele diz que não e agradeceu o convite.O outro cara mesmo ouvindo o não dele,resolveu dar a ele um pó branco,falou que era pra ele ficar mais tranqüilo e ligado ao mesmo tempo.

Já aceito o pó,é liberado com um aberto de mão e um tapa nas costas e um voto de boa sorte,o moleque após ter dado as costas pros caras e seguir o seu caminho,retorna pra casa com alegria e vendo que a sua mãe não estava tinha saído pra ir ao mercado.A curiosidade vem em sua porta e o torna juiz,sempre lhe perguntando se era certo ou não fazer aquele uso,mas a curiosidade é maior e ele resolve experimentar o pó branco,cheirou uma fileira,ficou ligado,assustado,viajando.

Passado uma semana ele retorna ao campo e vê novamente aqueles mesmo caras observando o jogo,ele cumprimenta os dois com um aperto de mão firme,pergunta se tem mais daquele pó que eles deram pra ele,após alguns segundos os caras fala que sim,o moleque que virou homem chega aos dezoito anos e infelizmente esquecendo os seus sonhos.Os caras falam que desta vez não é de graça,o rapaz pergunta o preço e paga sem nenhum problema,achou barato comprou mais cinco e agradeceu os caras e saiu fora a mil,correndo pela beira do campo.

Como nada é segredo sua mãe observa que seu filho está diferente,mas resolve ficar calada,pensa que seu filho está apenas cansado após tanto treinamento e jogos pelo seu time.A noite chega e o rapaz fala pra sua mãe que vai a uma festa e que volta assim que o dia amanhecer,sua mãe fala que tudo bem,pede pra ele ter juízo e que fique com Deus,ela ora pelo seu filho no coração talvez já tenha pressentido o perigo.Com um beijo no rosto seu filho vaga pela noite,admira a lua e esquece o amor de sua mãe em meio à loucura.

Mal sabe ele dos perigos da rua,chegando próximo ao local de encontro,ele encontra outros caras na mesma função que ele,pede licença escuta o som pesado,cheira e viaja,hoje não joga bola como jogava,não tem forças pra saltar,mas pensa somente em curtir.Durante algumas horas já está próximo o final da noitada,ele caminha no sentido da saída e retorna a sua vila,retorna a sua casa.Mas infelizmente ele acaba sendo confundido com um “nóia” que andava devendo pros caras,os caras bem loucos não o reconhecem e nem ao menos queria ouvir a sua voz,quer simplesmente o dinheiro.

Então ele fala que não tem dinheiro e sem chance de se explicar acaba sendo fuzilado com quatro tiros no peito.O silêncio é quebrado durante a madrugada,em frente ao campo que tanto brincava,em seguida escuto gritos...

- Corre,corre,corre !!!

Seu filho está caído e desta fez não é barulho de fogos,uma lágrima e um último abraço,um beijo no rosto e flores no caixão e uma eterna dor no coração.


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